quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O trânsito na Cidade do México

O único legislador cuja lei pegou aqui no México foi Sir Isaac Newton. Aqui as únicas leis que são efetivamente aplicadas são a Lei da Gravidade e a Lei do Cão.

Tendo dito isso, recomendo a você que vem viver no México, que antes de vir tome algumas transfusões de Sangue de Barata, porque este lhe vai ser bem útil para suportar as imbecilidades que esta gente faz no trânsito.

Primeiro Aspecto:

Aqui no México não existe exame de habilitação. Qualquer pessoa que queira conduzir um automóvel precisa apenas dar entrada num processo, pagar uma taxa e obter uma carteira de motorista, que até alguns dias atrás tinha Vigência Permanente (hoje parece que há as de 3 e as 5 anos, dependendo de quanto a pessoa queira pagar).

Segundo Aspecto:

Derivado do Primeiro Aspecto, aqui a maioria das pessoas DESCONHECE as leis do trânsito. Isso significa que ninguém sabe de quem é a preferência numa rotatória (mesmo quando está claramente sinalizado), e ninguém sabe a regra da preferência do que vem à direita quando um cruzamento não está sinalizado. E ninguém respeita nenhuma sinalização, desde um Pare (que aqui se escreve Alto) num cruzamento onde há uma preferencial, até um proibido estacionar, um proibido fazer retorno, um proibido tomar ou deixar passageiros. E estamos falando dos proibidos que possuem uma placa deixando claro o que é proibido, então falar dos proibidos menos óbvios como não estacionar em fila dupla (ou tripla), respeitar a faixa de pedestres e não andar na contra-mão, destes nem falar.

Terceiro Aspecto: A regra do um, dois e três

Derivado do Segundo Aspecto, aqui as pessoas só respeitam o semáforo quando há risco iminente de colisão (e às vezes nem assim). É profundamente normal que as pessoas usem a luz vermelha como se fosse a luz amarela. Por isso a regra do um, dois e três. NUNCA avance o sinal verde antes de dar passagem a pelo menos três carros da via perpendicular, salvo se estiver seguro de que TODOS já pararam no semáforo vermelho. Aqui é profundamente comum que pelo menos três carros avancem o semáforo vermelho. Obedecer esta regra, que parece um completo absurdo, é uma atitude prudente que lhe vai evitar muitos momentos desagradáveis.

Quarto Aspecto:

Sempre mantenha uma distância segura do carro da frente. Quando digo segura, mais segura do que a que você mantinha no Brasil. Os mexicanos são verdadeiros loucos, inconsequentes e impulsivos ao volante. Aqui ninguém (para não dizer ninguém, possivelmente uns 10%) sinaliza ao mudar a trajetória de seu veículo, seja para parar, seja para girar à esquerda ou à direita, seja para mudar de faixa no trânsito. E não o fazem por várias razões:

1- Não lhes importa;
2- Nem sabem para que serve a sinaleira;
3- Não sabem o que é ser cortês com os demais;
4- Numa mudança de faixa os carros que vem mais atrás tratam de dificultar a manobra quando a mesma é sinalizada.

Aparentemente aqui no México as pessoas que sinalizam os seus movimentos são considerados uns otários ou uns ousados: "Como é que você ousa arrancar de mim a gentileza de entrar na minha frente?"

Aqui as pessoas mudam de faixa, giram para o lado que for, é muito comum alguém estar na extrema direita e querer girar para a esquerda (e vice-versa), ou simplesmente param, sem dar NENHUM aviso. Quase todas as minhas colisões foram nestas circunstâncias.

Quinto Aspecto:

Aqui só há lei para os idiotas que as cumprem e via de regra, para os estrangeiros. É obrigatório o uso do capacete mas a polícia não usa. É obrigatório o uso do cinto de segurança mas a polícia não usa. É proibido andar na contra mão mas a polícia anda na contra-mão, mesmo quando não estão com a sirene ligada.

Sexto Aspecto:

Para não dizer que tudo aqui é estúpido, há pelo menos uma coisa inteligente: nos cruzamentos com semáforo, via de regra a direita é livre se não vier carro na via perpendicular. Isso às vezes agiliza o trânsito. Mas para compensar aqui no México, ao contrário do Brasil, tudo é permitido salvo quando indicado. Isso quer dizer que se pode girar à esquerda em qualquer cruzamento com semáforo (salvo se estiver indicado - mas ai caímos no Primeiro Aspecto: ninguém obedece nada) e se pode fazer retorno em qualquer cruzamento.

Sétimo Aspecto:

Aparentemente tudo se resolve com um suborno. O suborno faz parte da cultura do México. Aqui suborna-se com culpa ou sem culpa. Aqui os policiais se vendem por qualquer quantia, bem diferente do que se vê no Brasil. Outro dia viajando com um distribuidor, que conduzia seu carro a 160 km/h, eu lhe perguntei quanto custava uma multa por excesso de velocidade aqui no México. Ele me respondeu que não sabia. Então eu lhe perguntei se ele nunca havia sido parado, e ele disse que sim, mas que ele SEMPRE comprou os policiais rodoviários. O valor do suborno: 200 pesos, algo como R$ 30.

Aqui também se multa por achismo. Me explico: em Monterrey e cercanias, os policiais até algum tempo atrás nos paravam por excesso de velocidade sem possuir um radar. Nos paravam porque achavam que estávamos com excesso de velocidade. Obviamente que isso não vale como prova, trata-se apenas de mais um achaque. Este é um caso clássico do suborno sem culpa.

Oitavo Aspecto:

Ao contrário do Brasil onde a maioria das multas são geradas de forma eletrônica, sem a interação entre o agente de trânsito e o infrator, aqui no México todas (ou quase todas) as multas são presenciais. É necessário que o agente de trânsito intercepte o infrator e lavre a multa. E um pequeno detalhe: se o infrator é de fora do estado, o policial retém a sua carteira de motorista até o momento em que a multa seja paga. É ÓBVIO que tamanho inconveniente, somado à interação policial/infrator gera enormes oportunidades de negociação e suborno. Aqui as multas são tão baratas que às vezes dá vontade de pagar o valor da multa ao policial e acabar com a discussão. Na Cidade do México pouco-a-pouco vão instalando sistemas de multagem eletrônicos como no Brasil e mais e mais agentes de trânsito possuem PDA's para infracionar e terminais de cartão de crédito para cobrar a multa no ato. Quem sabe um dia eles chegam lá.

Um comentário:

  1. Adorei este post! Se tem realmente algo que me "molesta" aqui em DF é o transito. São tantos os absurdos que não parece real. Sangue de Barata é pouco.
    Vou seguir seu blog. Eu iniciei um agora que é vivendonomexico-df.blogspot.com
    Até.

    ResponderExcluir